"Riscos" na Revista Aliás #1, 2010

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riscos capa
riscos 1
(imagem esq: estudo de personagem | imagem dir: estudo para cenografia)

“Não há pessoas incapazes de aprender a desenhar, da mesma maneira que não há pessoas incapazes de aprender a escrever.” (Ana Leonor Rodrigues, 2003)

Só os artistas é que desenham?
O desenho é transversal e intradisciplinar.
É uma marca deixada numa superfície, pela acção do Homem, recorrendo a um determinado objecto riscante. É uma ferramenta, técnica e disciplina ao serviço da compreensão, do entendimento e da comunicação.
Desenhamos para compreender e para expressar.
Um artista, um carpinteiro, um professor, um cientista, um calceteiro, um cozinheiro, etc., todos desenham.
Desenhamos quando pretendemos clarificar uma ideia ou conceito.
Desenhamos quando queremos explicar o trajecto para um restaurante a um amigo.
Desenhamos para representar o que vemos para mais tarde recordar.
Desenhamos para analisar a forma de um objecto.
Desenhamos para matar tempo numa conversa chata ao telefone.
Desenhamos porque o acto de riscar ajuda a resolver um problema.
Desenhamos quando alguém não está a compreender o que estamos a querer dizer.
Desenhamos para documentar o real.

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(esq: Fachada do Hotal Ofir (Ofir – Esposende) | dir: Estação do Castêlo da Maia na fase em que estava em obras para a construção da actual estação de metro.)
Está em causa o acto de pensar e/ou expressar.
De um lado aparecem desenhos sem nenhuma intenção comunicativa, sem uma finalidade em si mesmos.
São desenhos para não serem vistos excepto por quem os criou.
Do outro aparecem desenhos com intenções comunicativas, com uma finalidade em si. É aqui que se encontra o desenho como “obra de arte”.
São desenhos para serem vistos (lidos) por outras pessoas.
Segundo Mário Bismark, de um lado está o “desenhar”, o verbo, e do outro está o desenho.

“A obra é então o fim do desenho, fim no sentido do terminar de uma acção que o legitimizou, mas também e portanto, no sentido da sua morte, mas não é o fim no sentido da sua finalidade…” (Mário Bismarck, 2007)

Podemos falar em vários tipos de desenho.
Juan Gomez Molina (2005) enumera uma série deles.
Desenho analítico, descritivo, naturalista, conceptual, abstracto, esquemático, poético, científico, técnico, linear, artístico, artesanal, ornamental, decorativo e animado.

Não vale a pena falar sobre cada um destes tipos.
Apenas é importante perceber que um desenho serve propósitos muito diversos, desempenhando assim funções que podem ser bastante distintas umas das outras.

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(esq: Estudo de personagem | dir: Storyboard para documentário)
Para mim desenhar (riscar) é como respirar.
Os desenhos são uma marca deixada por alguém e essa marca representa alguma coisa.
Nesse sentido um desenho é uma imagem que fala sobre quem o criou, sobre a sua visão e o seu pensamento.
Sobre o que está representado, sobre a cultura, sobre o real e a realidade.
Um desenho é uma opinião.
Por vezes faz parte de um processo de criação para chegar a algum lado.
Coisas que são deitadas cá para fora com o intuito de organizar, clarificar e desenvolver ideias.
Ao longo desse processo, dessa acção, observamos, experimentamos, corrigimos, erramos, solucionamos, imaginamos, organizamos, recordamos, visualizamos…

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(esq: esboços | dir: Estudo para cenografia)
Desenho muitas vezes para comunicar comigo mesmo.
É depois de riscar que muitas vezes me compreendo.

Os desenhos que apresento foram retirados dos meus diários gráficos e, como tal, na sua origem, servem o pensar. Neste momento, saem do diário gráfico e servem o expressar. Passam assim a fronteira do privado para o público, do interno para o externo.

BISMARCK, Mário (2007), Desenhar é o Desenho, FBAUP – Acta de conferência
CORTE-REAL, Eduardo (2009), Um Suave Guia para o Desenho em Viagem, Livros Horizonte, Lisboa
MOLINA, Juan Gomez et al (2005), Los Nombre del Dibujo, Cátedra, Madrid
RODRIGUES, Ana Leonor (2003), Desenho, Quimera, Lisboa
SALAVISA, Eduardo (2008), Diários de Viagem: desenhos do quotidiano, Quimera, Lisboa

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